Pictoramas Contemporâneos
A pintura de Pedro Wrede é uma trama construtiva atemporal que reflete as múltiplas influências culturais recebidas pelo artista. Carioca, filho de diplomata, ele viveu seus 41 anos trocando de país e de oportunidades de aprendizado artístico – e por isso sua pintura é eminentemente cosmopolita. A paixão inaugural por tintas e pincéis surgiu aos 12 anos, quando ele viveu no Panamá e foi iniciado por um artista local. Sua figuração sintetizada em signos, emblemas e linhas que expressam volumes é uma herança de seu aprendizado, no Uruguai, com Guillermo Fernández, um atento discípulo do mestre Joaquín Torres-Garcia. A metamorfose de suas figuras minimalistas em traços de inventiva formal ocorreu na Espanha, no influxo da visão multiangular dada por Picasso, assim como a descompactação do seu jogo formal, que se abriu numa dança de linhas no espaço, pode ser creditada ao fascínio pela leveza lírica que encontrou em Miró e Paul Klee. Outro aporte ao seu trabalho, reconhecido pelo próprio artista, foi o das “escritas brancas” de Tobey, que o inspiraram a fazer do vazio, das entrelinhas, uma afirmação plástica, um vetor da potência das imagens virtuais. Agora, retornando ao Brasil, sua pintura se desdobra numa arquitetura eclética de sínteses formais, que equilibra geometrizações com fábulas orgânicas. O melhor de tudo é que Wrede absorveu de todos os seus mestres apenas a indicação de caminhos, ou melhor, de horizontes possíveis. Longe de seguir pegadas ilustres, o pintor abriu seus próprios atalhos e conquistou uma pictografia indiscutivelmente pessoal, uma inquietude própria, que oscila entre o denso e o flutuante. Numa série de trabalhos, ele condensa a energia criadora no centro do quadro, plasmando signos, retas e volutas que já espelham uma vocação potencial para a arte da escultura. Na série seguinte, a tensão interior é desacumulada em estruturas mais lúdicas, feitas de linhas coloridas sobre fundo claro, que costuram no espaço imagens “radiográficas” de animais, engrenagens e veículos de espirito circense, arquétipos imemoriais (a cruz, o sol. a espiral), sem esquecer dos mini-signos que já se tornaram assinaturas, logomarcas que individualizam a sua obra (como as “trindades” de homenzinhos, triângulos, peixes e navios). Mesmo optando pela pintura como representação minimalista do mundo, Wrede não se rendeu à ditadura da vida concreta. Sua arte é exercício do direito de imaginar, de sonhar com precisão. Sua pintura é cosa mentale , é metafísica, que estende numa ordem construtiva as pulsões que fluem com liberdade do inconsciente. Negando a perspectiva realista para compor painéis bidimensionais do seu desejo de organizar o mundo, interior e exterior, ele atinge a esfera do inconsciente coletivo, na medida em que sua figuração super-sintética nos sugere ideogramas, hieróglifos, tapeçarias orientais, desenhos indígenas e sobretudo as inscrições ancestrais feitas na rocha pelo homem das cavernas.
Todo esse laborioso grafismo, que joga constantemente com virtualidades e contraformas, sustentado por cores austeras, não é arte para consumo imediatista. A profusão de “arabescos” que o artista nos apresenta é sem dúvida envolvente e de inegável beleza formal. Mas solicita nossa reflexão e nosso olhar intuitivo, para que, após um tempo de silêncio fecundo, possamos partilhar verdadeiramente de sua sutil simbologia pessoal. Só então podemos descobrir que o sentido das suas imagens é memória universal, pulsa no fundo da alma de todos nós, desde o momento mágico em que a primeira cruz e a primeira espiral foram riscadas por mãos humanas no chão ou na pedra.
Mário Margutti
Rio de Janeiro / 1994